quarta-feira, 20 de outubro de 2010

MAIS MEMÓRIAS DA INFÂNCIA


Regina em Saquarema, RJ, 2002.
Aprendi a brincar inicialmente com meu irmão e primo que eram respectivamente quatro e cinco anos mais velhos que eu, além de meninos. Fiquei destemida! Lembro-me de um dia que corria sobre o muro que separava nossa casa do lote vago, também de nossa propriedade, passando pelo telhado da dependência dos empregados, subindo na grande mangueira do quintal. Aliás, aos cinco ou seis anos eu fiquei engessada durante três meses, por ter quebrado a clavícula ao cair da parreira, depois de excursionar por muros, telhados e árvores.

Com o passar do tempo, fui ficando medrosa e passei a vez para a Clélia que também caiu da mangueira. Mamãe não podia saber ou ela seria castigada, então, ela ficava usando mangas compridas para esconder o machucado dos braços e eu a ameaçava de contar o acidente à mamãe, caso ela não compactuasse com minhas artes.

Regina e Marco, 1951.
Outra vez caí de cima do guarda-roupa e quebrei artelhos, além de rasgá-los em um parafuso do puxador da gaveta. Minha mãe mesma enfaixou tudo, ameaçando-me castigar e colocando pó de café para estancar o sangue. Fiquei mancando muito tempo! Posteriormente soube que o pó de café poderia causar tétano, mas era o que se fazia à época.

Havia um grande abacateiro na casa do vizinho ao lado. A casa era propriedade de americanos evangélicos e o mistério de seu isolamento nos atiçava a curiosidade. O abacateiro vivia carregado e ninguém parecia fazer uso dos abacates. Meu irmão Marco e primo Luiz Roberto eram os mentores das armações. Assim, resolvemos cavar um túnel sob o muro e pegar os abacates do outro lado. Conseguimos fazê-lo com sucesso. Durante o processo de escavação que durou dias, o buraco era tapado com uma tábua com terra e mato por cima, ao final de cada jornada, para que não vissem o que estávamos fazendo. Assim, que o túnel ficou pronto, meu irmão Marco arranjou um saco de linhagem que deveria voltar cheio de abacates. Aí, apareceu uma dificuldade. Precisávamos de luz interna. Imaginamos que a solução seria a aquisição de uma lamparina. Como adquiri-la? Foi fácil, vendemos umas torneiras de meu pai no ferro velho próximo e conseguimos o dinheiro com o qual a lamparina foi comprada. Deu tudo certo, mas o vizinho americano percebeu e nos delatou a meu pai que acabou com a nossa aventura.

Regina Lúcia, 1949.
Brincávamos com finca, bolinha de gude, bilboquê, pião. Mais tarde aprendemos a jogar barrabol e queimada na escola. Nossos pais iam ao centro à noite e ficávamos com as empregadas. Elas queriam sossego e costumavam bater na janela de fora, amedrontando os menores, como se fossem bichos ou seres do outro mundo.
Nós adorávamos brincar de construir barracas dentro de casa. Usávamos toda a roupa de cama limpa, guardada no armário embutido no quarto do Marco. Quando estava próximo de eles voltarem, a gente ia dormir... Um dia, além de fazer as barracas, brincamos de pique dentro de casa e acabamos quebrando uma cristaleira com tudo que estava dentro. Nunca vou esquecer a quantidade de cacos de vidro, de cristal e de espelho! Claro que, então, fomos dormir rapidinho!

Regina no velocípede, em 1950.
O mercado central era no local onde hoje funciona o Pathernon Center. Eu sempre fui louca por parques e bugigangas. A um quarteirão de casa, do outro lado da rua, havia as barraquinhas que vendiam essas coisas. Nós não podíamos sair sozinhos, claro, mas saímos escondidas. Eu devia ter no máximo seis anos e ainda levei a Clélia comigo para comprar bonequinhas lá.

Acontece que quase fomos atropeladas e fui devidamente repreendida por isto. Mais tarde, eu soube que ela ficou traumatizada com isso por bastante tempo. Não me lembro do que me disseram na ocasião, mas o fato é que fiquei com remorso e à noite sonhei que a Sônia, que começava a andar, era atropelada. No sonho, eu via o vestidinho que ela usava na tragédia. Para evitar a concretização do sonho, escondi o tal vestido que nunca mais foi encontrado! E fiquei tranqüila.

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